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Por que o #ForaTemer não é necessariamente um #VoltaDilma

O governo interino de Michel Temer (PMDB) mal completou uma semana e já tem sido alvo de vários protestos em todos os cantos do país. O que tem levado as pessoas as ruas, em geral, é um sentimento de falta de representatividade em relação ao governo, e aos políticos de modo geral, além do fato de perceberem que a saída para a crise não virá pelas mãos deste ou de qualquer outro governo.

Uma primeira análise mais rasa, nos levaria a crer que este movimento pelo #ForaTemer, se trata única e exclusivamente de uma reação de movimentos ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT), para desestabilizar o governo Temer pressionando o senado a votar pelo retorno de Dilma Roussef a presidência da república.

Essa visão superficial é compreensível, pois é fruto de uma falsa polarização criada na política brasileira nos últimos 20 anos, onde hipoteticamente só existiam duas posições políticas/econômicas,  o Neodesenvolvimentismo defendido pelo PT, ou o Neoliberalismo defendido pelo PSDB. E assim a política brasileira se organizou com partidos menores girando em torno destes dois polos, com o PMDB girando em torno dos dois simultaneamente, fortalecendo a imagem de que eram as únicas alternativas políticas e econômicas.

Essa polarização levada ao extremo, culminou na guerra “coxinhas x petralhas”, onde quem não apoiava nem o PT, e nem a velha direita, quando criticava um era chamado de “petralha”e quando criticava o outro era “coxinha”.

Evidentemente não podemos, ao analisar as manifestações contra o governo interino de Michel Temer, negar que os movimentos da base social do PT estão na rua disputando estes atos para que se tornem um #VoltaDilma, mas não podemos contudo, concluir que automaticamente esses setores tem a hegemonia sobre a linha política que estes atos tem tomado.

Os movimentos  e organizações da base do PT controlam importantes estruturas burocráticas, porém sua representatividade perante a base já não é tão hegemônica como nos anos 90, maior exemplo disto é que CUT e UNE, as principais estruturas burocráticas ligadas ao petismo, na luta contra o impeachment, mesmo fazendo intervenções teóricamente mais radicalizadas como o fechamento de rodovias,  não conseguiram fechar nenhuma fábrica ou universidade, que é onde de fato deveriam mostrar suas forças.

Além do distanciamento das direções Petistas de suas bases, outro fator que devemos levar em conta para compreendermos porque os atos #ForaTemer não são necessariamente atos pelo  #VoltaDilma, é a própria composição social destes atos.

Temos visto nestes atos além dos “militantes tradicionais da esquerda”, ligados partidos, movimentos e outras organizações, muitos jovens e trabalhadores que não participam de nenhuma organização, e que não aceitam acriticamente a direção dos “militantes tradicionais”, um bom exemplo disto foram nos atos em Curitiba, onde petistas puxaram o grito de “Volta Dilma!”, e mesmo que com alguma adesão, sempre acabavam abafados por outras palavras de ordem vindas dessa juventude.

O que tem levado essa juventude, e a grande maioria das pessoas, as ruas contra o governo Temer é principalmente  o questionamento de nosso sistema político, que não é democrático e nem representa os interesses da maioria da população. Muitas dessas pessoas não foram as ruas nos atos contra o impeachment, pois também não se sentiam representadas pelos governos do PT, porém tem a consciência de que o governo Temer não é uma alternativa para a juventude e a classe trabalhadora.

Por fim, não há nada definido sobre o Movimento #ForaTemer, estes atos estão em disputa, as lideranças da base social liga ao PT tencionam para que eles se efetivem como atos #VoltaDilma, movimentos e organizações à esquerda do petismo tencionam para que assumam um caráter tem contestação geral do sistema, enquanto isso a maioria da juventude e dos trabalhadores que participam dos atos, que não se organizam com nenhuma das vertentes que disputam esse movimento, está indo as ruas em busca de um outra alternativa politica, econômica e social.

Estamos diante da abertura de um importante período de lutas que pode colocar em cheque todo nosso sistema político e econômico, os atos pelo #ForaTemer podem se tornar um estopim de um processo muito maior, ou podem se esvaziar caso a linha do #VoltaDilma prevaleça, o que com certeza afastaria dos atos e da luta boa parcela da juventude e dos trabalhadores que estão aderindo aos atos.

O #ForaTemer não é necessariamente um #VoltaDilma, isso não quer dizer que ele não possa se tornar, é um processo em disputa, com uma complexidade de atores políticos e sociais que não pode ser compreendida levando em conta a falsa polarização entre petistas e anti-petistas, entre “coxinhas” e “petralhas”, precisamos ir um pouco além para tentar compreender e intervir neste processo que pode ser fundamental para  a organização política e econômica do país nas próximas décadas.

Publicado originalmente em Amenidades Blog:

Por que o #ForaTemer não é necessariamente um #VoltaDilma

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Vinicius Prado

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